sábado, 30 de julho de 2011

Cebola

Por Noeli

 Eu presto só um pouco de atenção às novas teorias sobre o politicamente correto, o socialmente correto, questões como racismo, preconceito, bulling, etc. Digo só um pouco porque acredito que o caráter é intrínseco e não tem associação com imagem, que é a base da sociedade atual. Hoje todo o mundo quer ser visto como socialmente correto, então recicla o lixo, ecomomiza  a água, utiliza denominações raciais corretas, porém, a grande maioria é hipócrita. A maior parte é feita para mostrar à sociedade e não como padrão pessoal. Entre nós, família, e entre os amigos continuamos nos tratando com o carinho de sempre. O André é o Negão, o Adê é o Gaúcho (isso vem sempre acompanhado de um UUUUH!) e o Edson é o Baixinho ou Alemão. Sempre brincamos com as características físicas de cada um e, lembro-me que quando éramos mais jovens, quase todos os amigos tinham apelidos meio engraçados e isso era muito mais diversão do que ofensa. O japonês da quitanda, alguém se lembra do nome dele? Era só Japonês. E a Baiana? E nosso primo, o Negão? E o Português, o Turco, a Paçoca, a Bananinha, o Branca de Neve, o Dentinho, a Rita louca, o Calango, o Cabeção, o Jatobá, o Tarzan, alguém sabe o nome?
Só ouvi contar de uma vez que o apelido não teve boa acolhida. Foi mais ou menos assim: a Wi saía sempre com uma turma de amigos e numa de suas festas, estava com eles uma menina que nem chegaram a apresentar , mas a mencionaram como “Cebola”. Passados alguns dias, a Wi voltava a pé do centro e viu na sua frente a garota. Como o caminho era meio longo, pensou em chamá-la para ter companhia, e teve que gritar porque a menina estava um pouco mais adiante. Então começou: “Cebola! Ceboooolaaaa!”, e a menina nem olhava para trás. Apertou o passo e continuou: “Cebola, Cebola...”, e nada! Chegou bem perto, tocou no ombro dela e disse: “Poxa, Cebola, tô te chamando faz um tempão, você não ouviu?” E a menina (se me permitem o trocadilho) roxa:
“Cebola é a tua mãe!”
Acho que isso foi bulling. Mas foi sem querer.

domingo, 24 de julho de 2011

A Exorcista

Por Noeli



Dona Pepé era uma senhora portuguesa que morava na nossa rua. Ela tinha 3 filhos e eles vivam num padrão bem melhor que o nosso. O marido dela, corretor de imóveis, quase não se via, mas Dona Pepé levava a casa com mão de ferro, educava os filhos, cuidava das contas... Isso tudo com muita calma, delicadeza e um forte sotaque lusitano. Era uma vizinha exemplar, não se dava ao luxo de perder tempo com conversas no portão, nem com visitas aos vizinhos. E religiosa, católica apostólica devotíssima, não perdia uma missa.

Dona Pepé também era empreendedora, nos fundos do terreno de sua casa, construiu mais umas três casinhas de aluguel. Seus inquilinos eram gente direita, pagavam o aluguel em dia e não causavam problemas.

Um dia, uma das casinhas vagou e ela alugou a um casal sem filhos. Eram bem tranquilos, mas a primeira briga dava para ouvir da rua. Dona Pepé ficou preocupada, sentou-se com a inquilina e a aconselhou. Conversa de mulher. E a mulher, muito assustada contou a ela que seu marido incorporava o demônio, e quando isso acontecia, nem quatro homens fortes podiam com ele, a transformação era aterrorizante. Essa conversa acabou ficando conhecida, se espalhou pela vizinhança e o tal homem ficou temido. Quanto mais tempo passava, mais ele tinha as crises e mais medo todos tinham dele. A cada vez, ele espancava a esposa, quebrava tudo dentro de casa, e quando não restou nada, ele começou a destruir a casa.

Dona Pepé não gostou e avisou o casal. Não adiantou. Mais uma crise e ela recorreu à policia, que chegou muito tempo depois e não resolveu nada. Mas que raios, era a casa dela!

A crise seguinte surpreendeu, a gritaria e barulheira chamou a atenção dos vizinhos e fomos todos muito curiosos apreciar o demônio incorporado. O homem rosnava e jogava coisas contra a parede e para todos os lados. A mulher dele gritava. Os vizinhos se amontoavam na frente da casa para ver o espetáculo. Até que uma das coisas que ele atirou acertou a janela da casa da frente, que era bem onde a Dona Pepé morava. Lembro-me como se fosse hoje, ela muito brava, com um pedaço de pau na mão achado nem sei onde, com o sotaque carregadíssimo dizendo ”Estais com o demônio? Então vamos exorcisar!” e baixou-lhe o cacete. Ele tentou reagir, mas só até a segunda paulada. Na quarta ele já implorava “Pára dona Pepé, pára...”. Depois de vários golpes ela parou, e exigiu que eles se mudassem na mesma semana.

 Nunca mais aconteceu nada de sobrenatural naquela casa.

sábado, 9 de julho de 2011

Coisa de criança

Todo mundo tem uma vizinha fofoqueira. Ah, você não tem? Então a fofoqueira deve ser você. Algumas vezes essas vizinhas acabam provando do próprio veneno. Eu me lembro de uma ocasião dessas. Tínhamos uma vizinha que morava em frente à nossa casa. Ela falava da vida de todo mundo, sabia de todos os acontecimentos (principalmente das desgraças alheias) e compartilhava com a vizinhança inteira.
As jovens que moravam ali eram criticadas e,  com exceção  da própria filha, todas eram assanhadas, tinham suspeita de gravidez, suspeita de casos com homens comprometidos e a boataria corria solta.
Nós, em plena idade da baixíssima auto estima, descobrindo que o mundo não era assim a maravilha que os filmes americanos prometiam, odiávamos ela. Em silêncio.
Na época, eu tinha uns 23 anos, a Lú 21 e a Samaya 4, e tínhamos uma cachorrinha chamada Luana. Certo dia, a vizinha muito faceira nos disse que receberia a visita de sua comadre e que gostaria de nos mostrar sua afilhadinha. Muito a contra gosto concordamos. Quando chegou a visita, ela nos chamou e apresentou:
-Essa é Luana, minha afilhadinha.- Ela estava muito orgulhosa de tão lindo bebê.
Naquele momento, entre os “que linda!”, “que fofura” absolutamente falsos, a Samaya pergunta bem alto:
-Nossa! Por que puseram nome de cachorro nela?
O resto você pode imaginar. A nossa felicidade também.
Criança é fogo.